Mostrar mensagens com a etiqueta Angola - Marcofilia. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Angola - Marcofilia. Mostrar todas as mensagens

domingo, 16 de setembro de 2012

Carimbos numéricos volantes (28) * Andulo


Andulo nos anos 60
            Do estudo que vimos fazendo sobre os carimbos numéricos volantes cabe agora a vez de escrevermos sobre o historial do carimbo e sinete de lacre com o número 28. Este carimbo faz parte da segunda remessa que se mandou fazer e que era composta por dez carimbos numerados de 21 a 30.
            Estes dez carimbos pertencem ao tipo 2 cujas características principais são: círculo concêntrico exterior com 26mm de diâmetro e a legenda do arco inferior “CORREIOS” em vez da legenda do tipo 1 “CORREIO”.
Desenho do carimbo
 
            O carimbo e sinete de lacre foram atribuídos à estação postal de 3.ª classe do Andulo, pela ordem de serviço n.º 76 da Repartição Superior dos Correios de Angola, datada de 10 de Março de 1916, que abaixo se reproduz destacada do Boletim dos CTT de Angola n.º 3 de 1916.
Ordem de Serviço n.º 76 da RSCA de 10.03.1916
 
            A estação postal do Andulo foi criada pela Portaria Provincial n.º 9 de 16 de Janeiro de 1916 com a categoria de 3.ª classe, executando os serviços de recepção e expedição de correspondências ordinárias, assim como a venda de selos postais e outras fórmulas de franquia. Ficou responsável pela sua gestão o Chefe de Posto. Normalmente as chefias das estações postais de 3.ª classe eram entregues a pessoal estranho aos serviços dos correios, como sejam chefes de posto civil, comandantes de postos militares, comerciantes e chefes de estações ferroviárias.
Portaria n.º 9
 
            Em língua gentílica, Andulo designava-se Indulo ou abreviadamente Dulo, que significava fel (amargura). O soba Chicolongongo tinha um filho que foi mordido por uma cobra e acabou por falecer. O dorido pai decidiu mudar o nome da embala (povoação) para Andulo (fel-amargura).
Mapa de localização
 
Em 1916 quando foi criada a estação postal Andulo era um simples posto civil do Bié. Em 21 de Janeiro de 1920 pela Portaria Provincial n.º 46 foi criada a Circunscrição Civil do Andulo, cuja sede primitiva estava em Caundi, tendo passado para o Posto Civil do Andulo, também designado pelos nativos, por Posto de Dondelo. Em 1934 passou a constituir um concelho de 3.ª classe.
Administração do Concelho onde durante vários anos esteve instalada a estação postal
 
            A localidade do Andulo teve um desenvolvimento rápido e em 1959 mercê do grande volume de correspondência postal circulada e por ser servida pelo telégrafo passou a ter uma estação telégrafo-postal de 1.ª classe servida por pessoal afecto aos serviços dos correios.
Fig. 1 - Sobrescrito circulado do Andulo (07.07.34) para Vila Nova de Fozcôa (28.07.34) com trânsito por Silva Porto (08.07.34). Franquiada com 0,80Ag pelo primeiro porte para Portugal (cartas até 20g) + selo do imposto postal “Assistência” de 0,50Ag devido durante o mês de Julho.
 
            Andulo ficava a uma altitude de 1.790 metros em pleno planalto central e usufruía de um clima subtropical óptimo, com temperaturas médias anuais de 20.º chegando a gelar as águas fora de casa nos meses mais frios de Maio a Julho, o que facilitava a fixação de europeus.
Fig. 2 - Sobrescrito circulado do Andulo (18.01.45) para Boston. Franquiado com 1,75Ags correspondente ao primeiro porte para cartas com destino aos países estrangeiros (peso até 20g)
 
            Economicamente era muito forte existindo em 1959 65 casas comerciais na área do posto, para além de diversas unidades agrícolas que se dedicavam à cultura do café, sisal, tabaco, batata, trigo e milho. A pecuária também apresentava um bom desenvolvimento. Porém a fruticultura tinha uma grande implantação, exportando frutas para Luanda, principalmente morangos, maçã, laranja, goiaba e nêsperas.
Fig. 3 - Bilhete-Carta para o serviço aéreo de 4,50Ags circulado de Chilesso / Andulo (21.04.51) para Sunderland / USA, com trânsito pelo Lobito (24.04.51) e Luanda (28.04.51). Carimbo numérico utilizado como recurso, pois a estação do Andulo já tinha marca de dia própria com topónimo.
 
            Tinha um clube desportivo e recreativo, o Sport Andulo e Benfica. Á Vila do Andulo chegou a ser dado o nome de Vila Macedo de Cavaleiros, mas voltou a chamar-se Andulo por imposição legal.
            O carimbo numérico volante atribuído à estação postal do Andulo foi o que mais tempo esteve ao serviço de uma estação postal. Atribuído à mesma em 1916 encontram-se registo da sua utilização em 1951 conforme se pode constatar pelo figura n.º 3 .
Fig. 4 - Bilhete-Carta para o serviço aéreo circulado do Andulo (19.06.57) para os EUA. Sobretaxado de 1$00 sobre 2$50. Um selo adicional de 3,00Ags perdido.
 
É provavelmente o carimbo mais comum de entre os carimbos numéricos. Pelos nossos registos a Vila do Andulo só teve marca de dia com topónimo na reforma de 1947 (Fig. 4)


Bibliografia
· Índice Histórico-Corográfico de Angola, 1972, Mário Milheiros, IICA
· Boletim Oficial de Angola
· Boletim dos CTT de Angola, 1917
· Dicionário Corográfico-Conercial – Antonito, 1959 4.ª edição
 
 

quinta-feira, 6 de setembro de 2012

Carimbos numéricos volantes (10) * Vila Arriaga



Vila Arriaga - Chegada do comboio
           
          
            Voltamos ao historial dos carimbos numéricos volantes que começaram a ser distribuídos, em 5 de Agosto de 1913, pelas estações postais que não tinham marcas de dia próprias. Eram carimbos com um cunho eminentemente provisório mas que na realidade se perpetuaram por longos anos nas estações a que foram atribuídos. É este o caso do carimbo e sinete de lacre n.º 10. Este carimbo é da tipologia 1, constituído por dois círculos concêntricos, com 26 mm no círculo maior e com a legenda inferior “CORREIO”.
Fig. 1 – Desenho do carimbo volante n.º 10
 
O carimbo foi atribuído à estação postal de Vila Arriaga pela Ordem de Serviço n.º 351 da Repartição Superior dos Correios de Angola, datada de 24 de Outubro de 1913, e que abaixo se reproduz, destacada do Boletim dos CTT de Angola.
Fig. 2 – Ordem de Serviço n.º 351 da RSCA de 24.10.1913
 
            A estação postal de Vila Arriaga foi criada pela Portaria Provincial 294-A de 14 de Março de 1912. A sua abertura não foi feita de forma habitual. Quando se iniciou a construção do Caminho-de-Ferro de Moçamedes foi criada uma estação postal itinerante que acompanhava a testa da linha ferroviária em construção.
Fig. 3 – Portaria Provincial n.º 294-A
 
Inicialmente a linha do Caminho-de-Ferro de Moçamedes estava programada para ser construída até à localidade da Humbia, cerca de 18 kms depois de Vila Arriaga, também conhecida por Bibala. A partir da Humbia a construção da linha ferroviária era de enorme complexidade, pois a transposição da serra da Chela em direcção ao Lubango era um obstáculo de respeito.
            Porém a deflagração da Primeira Grande Guerra vai determinar que a construção da linha se prolongue, pois havia necessidade de fazer deslocar tropas para o interior, afim de defender a região além Cunene.
Fig. 4 – Estação ferroviária de Vila Arriaga, primeira localização da estação postal
 
Assim, quando a construção da linha avançou e chegou à Vila Arriaga a estação itinerante que estava entretanto no Km 147 foi transferida para Vila Arriaga e aí ficou definitivamente, pois esta vila foi criada para ser a estação terminus da linha, sendo encarregado da sua exploração o chefe da estação ferroviária.
A estação postal vai manter-se situada na estação ferroviária e a cargo do seu chefe durante quase oito anos, até quando, pela Portaria n.º 50 de 22.01.1920, é transferida para a Administração da Circunscrição Civil da Bibala cuja sede era Vila Arriaga. Ou seja a estação postal apenas se deslocou fisicamente da estação ferroviária para a Administração da Circunscrição dentro da mesma localidade.
Fig. 5 – Portaria n.º 50
 
            Conforme anteriormente afirmamos, Vila Arriaga foi criada pela Portaria n.º 124, publicada no Boletim Oficial n.º 5 de 1912 para ser a Estação Terminus do Caminho-de-Ferro de Moçamedes. Começou por ser sede da Circunscrição de Capangombe mas mais tarde passou a ser a sede da recém criada Circunscrição Civil da Bibala, composta pelos postos de Lola, Camecuio, Bentiaba e Alto Bentiaba.
Fig. 6 – Mapa com localização de Vila Arriaga
 
            Vila Arriaga está situada ao Km 169 da linha do Caminho-de-Ferro de Moçamedes e dista cerca de 50kms de Sá da Bandeira, abrigada pelos contrafortes da Serra da Chela, com um clima bom para fixação de europeus e com largos e imponentes panoramas da serra.
Fig. 7 – Vista parcial de Vila Arriaga
 
            Em 1959 existiam em todo o concelho 21 casas comerciais, sendo 10 na Vila. Uma das grandes riquezas da região era a pecuária com destaque para a criação de bovinos e caprinos. Ficava situada no concelho a Reserva Pastoril da Bibala, com cerca de 800.000 hectares destinada a europeus e equiparados. Tinha moagens de cereais e fábricas de corte de madeiras.
Fig. 7 – Centro da Vila notando-se do lado esquerdo o seu Coreto.
 
            Havia o Clube Recreativo e Desportivo da Bibala que desenvolvia uma actividade desportiva muito intensa e interessante, destacando-se o basquetebol feminino. A Vila também era conhecida pelas famosas festas em homenagem aos santos populares, com bailes e actividades desportivas, muito frequentados pelas populações das vizinhas cidades de Moçamedes e Sá da Bandeira.
Fig. 8 – Postal ilustrado circulado de Vila Arriaga (30.01.1930) para o Cairo com trânsito por Moçamedes (31.01.1930). Foi erradamente franquiado com 1$60 (primeiro porte para cartas remetidas para o estrangeiro) em vez de 96c correspondente ao porte de bilhetes postais para o mesmo destino.
 
            Voltando ao assunto principal deste artigo, o carimbo volante numérico esteve em uso na estação postal durante muitos anos. São conhecidos muitos postais ilustrados obliterados com esta marca, porém a grande maioria são obliterações filatélicas, não passando de meros “souvenirs”. Os exemplares correctamente circulados são muito mais raros.
Fig. 9 – Postal ilustrado circulado de Vila Arriaga (27.05.21) para Palermo (29.05.21) com trânsito por Moçamedes (28.05.21). Pagou de franquia 50c correspondente a: 36c porte de bilhetes-postais para o estrangeiro + 14c de excesso de porte.
 
            Só em 1939, com a reforma das marcas-de-dia em Angola, foi atribuída uma marca de dia definitiva já com o topónimo de VILA ARRIGA. O carimbo numérico esteve em uso na estação durante 26 anos ininterruptos.

 
Bibliografia
·         Índice Histórico-Corográfico de Angola, 1972, Mário Milheiros, IICA
·         Boletim Oficial de Angola
·         Boletim dos CTT de Angola, 1917
·         Dicionário Corográfico-Conercial – Antonito, 1959 4.ª edição
 

quarta-feira, 29 de agosto de 2012

Carimbos numéricos volantes (36) * Mona Quimbundo / Saurimo


Vista aérea de Saurimo
            Voltamos neste artigo aos já conhecidos carimbos numéricos volantes, desta vez para historiar o percurso e o período de utilização do carimbo com o número 36, de uma série de 40 carimbos, mandados executar para prover as estações postais recentemente abertas de marcas de dia, ou as estações que por qualquer razão se encontravam impossibilitadas de utilizar as suas marcas próprias. Este carimbo é do tipo 3, semelhante a todos os que tiveram a numeração de 31 a 40, e caracteriza-se principalmente por ter um diâmetro maior (31 mm) em relação aos dos tipos 1 e 2.
Fig. 1 – Desenho do carimbo e selos obliterados com a marca
 
            O carimbo numérico 36 e o respectivo lacre foram inicialmente atribuídos à estação postal de 3.ª classe de Mona Quimbundo, no Distrito da Lunda. Essa atribuição foi feita pela Ordem de Serviço n.º 8 da Repartição Superior dos Correios de Angola e datada de 15 de Janeiro de 1917.
Fig. 2 – Ordem de Serviço n.º 8 da Repartição Superior dos Correios de Angola
 
            A estação de Mona Quimbundo foi criada pela Portaria Provincial n.º 47 de 21 de Janeiro de 1915, e resultou da transferência para a sede da Capitania-Mor de Mona Quimbundo da estação postal de 3.ª classe de Minungo, tendo ficando a cargo do sargento da referida Capitania.
Fig. 3 – Portaria Provincial n.º 47
 
            É interessante constatar que a atribuição do carimbo numérico volante à estação postal de Mona Quimbundo ter sido feita seis dias antes da sua criação oficial por portaria provincial.
            Mona Quimbundo era um antigo posto militar, criado em 1912, sendo convertido em Capitania-Mor por Portaria n.º 239 de 08.12.1914, tendo passado a Posto Civil em 03.03.1919. A região era propícia à fixação de europeus mercê de um bom clima temperado onde as temperaturas nunca ultrapassavam os 30.º.
            Porém esta estação postal não estaria aberta por muito tempo porque por Portaria Provincial n.º 71 de 14.04.1917, foi transferida para a povoação de Saurimo, tendo esta transferência determinado que o respectivo carimbo numérico também transitasse para a nova estação postal. Assim o carimbo esteve pouco mais de dois meses em uso na estação postal de Mona Quimbundo.
Fig. 4 - Portaria Provincial n.º 71
 
            O período coincidente com a duração da Grande Guerra foi caracterizado em Angola por sucessivas aberturas e encerramento de estações postais, provavelmente em função das diversas operações militares que se desenrolaram. E assim não é de espantar que volvidos cinco meses após o seu encerramento se voltasse a criar nova estação postal em Mona Quimbundo de acordo com a Portaria Provincial n.º 144 de 15.09.17.
Fig. 5 – Portaria Provincial n.º 144
 
            Como a carimbo foi transferido para Saurimo em Abril por lá ficou não tendo retornado a esta recriada estação postal.
            Saurimo foi inicialmente um posto militar criado pela Portaria Provincial n.º 238 de 08.12.1916, derivando o seu nome do topónimo local Sá-Urimo. Em 1918 foi nomeada para sede do Distrito da Lunda, passando posteriormente a denominar-se Vila Henrique de Carvalho e apenas por Henrique de Carvalho quando por Decreto-Lei n.º 2757 de 28.05.1956 foi elevada à categoria de cidade.
Fig. 6 - Mapa com a localização de Saurimo e Mona Quimbungo
 
Datam do ano de 1624 as primeira relações de europeus com os habitantes da Lunda, quando a denominada Feira de Cassange estava no seu apogeu, porém só a partir de 1895 é que se começou a ocupar militarmente a região, mercê das campanhas capitaneadas por grandes oficiais como o foram Utra Machado, Henrique de Carvalho, Bento Roma ou Veríssimo Sarmento. Nesse mesmo ano de 1895 foi criado o Distrito da Lunda sendo a sua primeira capital a povoação de Capenda Camulemba.
Fig. 7 - Vista de Henrique de Carvalho
 
Como sede do Distrito da Lunda, Henrique de Carvalho atingiu uma certa notoriedade económica, pois é neste Distrito que se encontravam situadas as minas de diamantes, exploradas pela poderosa Diamang. Embora a exploração mineira fosse o grande motor de desenvolvimento da região não eram despiciendas actividades como por exemplo a agricultura de onde sobressaía a cultura do arroz, do amendoim e do milho.
            Oriunda da estação postal de Saurimo, pertence à minha colecção, uma carta datada de 1928 com o carimbo numérico volante 36 (Fig. 8), não sendo conhecido nenhum exemplar filatélico (carta ou selo) do período de pouco mais de 2 meses em que o carimbo esteve em uso em Mona Quimbundo.
Fig. 8 – Sobrescrito circulado registado de Saurimo (11.08.28) para Lisboa (19.09.28) com trânsito por Luanda. Franquiado com 1$60 correspondente a: 0$80 pelo primeiro porte para cartas remetidas para Portugal com o peso até 20g + 0$40 pelo segundo porte (peso de 21 a 40g) + $040 pelo prémio de registo.
 
            Na década de 30 esta marca foi substituída por uma marca privativa da estação postal que entretanto tinha passado a telégrafo-postal (Fig. 9). Esta marca manter-se-ia em uso até 1939.
Fig. 9 – Sobrescrito circulado do Dundo (23.08.1931) para Nova York com trânsito por Saurimo. Franquiada no Dundo com 1$30 foi-lhe acrescido ao porte em Saurimo selos no valor de 0$10, perfazendo o porte de 1$40 correspondente ao primeiro porte para países estrangeiros (cartas com o peso até 20g).
 
            Em 1939 com a reforma das marcas de dia em Angola a estação foi dotada com um carimbo da nova tipologia (Fig. 10) assumindo já o novo topónimo de HENRIQUE DE CARVALHO em vez da anterior designação de SAURIMO.
Fig. 10 – Sobrescrito circulado de Vila Henrique de Carvalho (19.09.1952) para Lisboa, com trânsito por Vila Luso (21.09.1952). Pagou de sobretaxa aérea 4$00.
 
 
Bibliografia
·         Índice Histórico-Corográfico de Angola, 1972, Mário Milheiros, IICA
·         Boletim Oficial de Angola
·         Boletim dos CTT de Angola, 1917
·         Dicionário Corográfico-Conercial – Antonito, 1959 4.ª edição
 

quarta-feira, 22 de agosto de 2012

Carimbos numéricos volantes (06) * Muangai / Cassamba / Lumai


Rio Lungué-Bungo
            Neste apontamento regressamos ao estudo que vimos fazendo sobre os carimbos numéricos volantes que foram colocados à disposição das estações postais recém-criadas e que ainda não possuíam a sua marca de dia com topónimo, assim como das que, por alguma razão, ficaram impossibilitadas de usar as que inicialmente lhe haviam sido distribuídas.
            O carimbo e o respectivo sinete para lacre com o número “6” foram atribuídos à estação postal de 3.ª classe de Lungué-Bungo pela Ordem de Serviço n.º 301 datada de 28 de Agosto de 1913 e emanada da Repartição Superior dos Correios de Angola.
Ordem de Serviço n.º 301 de 28.04.1913

            A Ordem de Serviço supra contém um grave erro de descrição porque nunca existiu uma estação postal com o nome de Lungué-Bungo. Este nome foi atribuído a uma região que era banhada por um rio com o mesmo nome, que era um importante afluente da margem direita do rio Zambeze. O nome também foi atribuído a uma Capitania-Mor criada pela Portaria 1062-E de 1912 (Boletim Oficial n.º 2), por desanexação de territórios ganguelas, com sede em Cassamba. Pela Portaria n.º 146 de 10 de Maio de 1922 foi extinta a Capitania-Mor e passou a Circunscrição Civil ainda com sede em Cassamba, que entretanto foi extinta em 13 de Maio de 1932 (Decreto n.º 353).
 
Selo obliterado com carimbo volante em serviço na estação postal de Muangai

            Na realidade o carimbo volante foi atribuído à estação postal de 3.ª classe em Muangai. Esta estação postal foi criada pela Portaria n.º 373 de 17 de Abril de 1913, que abaixo se reproduz, com a categoria de 3.ª classe, executando os serviços de recepção e expedição de correspondências e venda de selos postais e mais fórmulas de franquia. Ficou encarregado da estação postal o Capitão-mor da Capitania do Lungué-Bungo cuja sede era Muangai.
Portaria n.º 373 de 17.04.1913

            Muangai era um posto militar e após a extinção da Circunscrição Civil de Lungué-Bungo passou a posto civil administrativo do Concelho do Moxico.
            Em 4 de Agosto de 1919, pela Portaria n.º 261 do Governo-Geral de Angola, foi determinado o encerramento da estação postal, e em sua substituição foi criada uma nova estação postal com a mesma categoria em Cassamba, nova sede da Capitania-Mor de Lungué-Bungo. Com a transferência da estação postal seguiu também o carimbo volante n.º 6.
Portaria n.º 261 de 04.08.1919

            Cassamba foi um posto administrativo civil, criado pela Portaria Provincial n.º 129 de 22 de Abril de 1919. Porém a saga deste carimbo volante não terminaria com a sua transferência para Cassamba porque em 6 de Fevereiro de 1924 pela Portaria Provincial n.º 19, a sede da Circunscrição Civil de Lungué-Bungo foi transferida de Cassamba para a localidade de Lumai e por consequência a estação postal que aí funcionava foi também transferida para a nova sede da Circunscrição.
            Lumai era um posto militar criado pela Portaria Provincial n.º 175 de 16 de Setembro de 1916 (B. O. 37) da Capitania-Mor do Lungué-Bungo, e extinto em 13 de Janeiro de 1923, passando a posto administrativo.
Portaria Provincial n.º 19 de 06.02.1924

            A estação postal não se quedaria em Lumai por muito tempo pois, por Portaria Provincial n.º 69 de 3 de Junho de 1925, foi novamente transferida a sede da Circunscrição para a povoação de Cassamba e com ela também foi transferida a estação postal e concomitantemente o carimbo volante n.º 6.
Portaria Provincial n.º 69 de 03.06.1925

            Em resumo, o carimbo esteve em uso na estação postal sucessivamente transferida para as três localidades, nas seguintes datas:
                        Muangai                      17.04.1913 a 04.08.1919
                        Cassamba                   05.08.1919 a 06.02.1924
                        Lumai                           07.02.1924 a 03.06.1925
                        Cassamba                   04.06.1925 a ??.??.????
            Não é conhecida a data em que este carimbo deixou de ser utilizado. Provavelmente manteve-se na estação postal até à sua extinção. O que podemos afirmar é que esta marca é muito difícil de se encontrar. Na minha colecção apenas possuo uma carta e um selo obliterados com o carimbo.
Sobrescrito circulado registado de Cassamba (16.12.1931) para Nova Lisboa, com trânsito por Moxico (21.12.1931) e pela ambulância descendente do Caminho-de-Ferro de Benguela (22.12.1931). Franquiado com 1$80 correspondente a: 1$00 pelo primeiro porte de correio ordinário para cartas circuladas dentro de província com peso até 20g + $80 pelo prémio de registo (Aviso da Direcção dos Serviços dos Correios e Telégrafos, publicada no Boletim Oficial de Angola nº 45 de 05.11.1931) + $50 pelo imposto postal (Assistência). Carimbo volante em serviço na estação postal de Cassamba.

            A região onde estavam inseridas as localidades por onde passou o carimbo volante tinha uma densidade populacional baixíssima. A população letrada estava confinada aos destacamentos militares e a menos de uma dezena de comerciantes que na região mercavam com os nativos. Em 1959, segundo o Dicionário Corográfico-Comercial Antonito, a povoação de Cassamba tinha três casas comerciais, estando duas delas fechadas e era servida quinzenalmente por uma carreira de camionagem que ligava Luso a Cangamba; Lumai tinha apenas duas casas comerciais e Muangai era a mais influente economicamente com 4 casas comerciais.
Mapa da região do Lungué-Bungo

            Normalmente nestas regiões inóspitas e de débil economia as missões religiosas conferiam-lhe uma maior importância, porém na Circunscrição Civil de Lungué-Bungo não existia qualquer missão. Em resumo, proferimos a propósito, que eram “TERRAS DE FIM DO MUNDO”. Para uma melhor avaliação, diremos que a área representada no mapa acima reproduzido, corresponde aproximadamente à área conjunta do Alentejo e Algarve.


Bibliografia
·         Boletim Oficial de Angola
·         Índice Histórico-Corográfico de Angola, 1972, Mário Milheiros, IICA
·         Dicionário Corográfico-Comercial – Antonito, 1959 – 4.ª edição

quarta-feira, 15 de agosto de 2012

Carimbos numéricos volantes (05) * Ilha de Luanda / Calunga



Ponte da Ilha de Luanda em 1924
Este é mais um artigo sobre um dos carimbos numéricos volantes que em meados de 1913 foram utilizados para suprir a falta de marcas de dia nas estações postais de Angola. Trata-se do carimbo n.º 5, que foi atribuído inicialmente à estação postal da Ilha de Luanda, pela Ordem de Serviço n.º 285 de 5 de Agosto de 1913 da Repartição Superior dos Correios de Angola.
Ordem de Serviço n.º 285 de 05.08.1913

A estação postal da Ilha foi criada pela Portaria n.º 313 de 27 de Março de 1913 com a categoria de 3.ª classe, executando os serviços de recepção e expedição de correspondências ordinárias e registadas, distribuição de avisos de encomendas e de cartas e caixas com valores declarados, e venda de selos postais e outras fórmulas de franquia.
Portaria n.º 313 de 27.03.1913

Em 1913 não seria significativo o movimento postal na Ilha de Luanda justificado pela fraca densidade populacional. Provavelmente por essa razão nunca tive a oportunidade de observar carta ou selo postal obliterados com o carimbo numérico a ela atribuído.
A imagem reproduzida acima dá uma ideia do que era a entrada da Ilha de Luanda em 1924, cerca de dez anos após a instalação da estação postal. Não passava de um conjunto de casebres de madeira ocupados por pescadores. Durante a época balnear era servida por um trâmuei que transportava os banhistas de Luanda.
            Tal motivo poderá, também, ter estado numa das razões que levaram ao seu encerramento pouco mais de dois anos após a sua abertura ao público. Pela Portaria 898 de 16 de Setembro de 1915, abaixo reproduzida, foi mandada encerrar. Encontrar um espécime filatélico obliterado com o carimbo n.º 5 entre Agosto de 1913 e 16 de Setembro de 1915 será um verdadeiro achado.
Portaria n.º 898 de 16.09.1915

            Com o encerramento da estação postal da Ilha de Luanda o carimbo e sinete de lacre com o n.º 5 foram recolhidos à Repartição dos Correios e novamente distribuído à estação postal de Calunga pela Ordem de Serviço n.º 338 de 25 de Novembro de 1916, da citada repartição.
Ordem de Serviço n.º 338 de 25.11.1916

A estação postal de Calunga foi criada pela Portaria n.º 672 de 27 de Dezembro de 1907 com a categoria de 3.ª classe, executando os serviços de recepção e expedição de correspondências ordinárias e registadas e ainda de venda de selos e outras fórmulas de franquia.
Portaria n.º 672 de 27.12.1907

            A abertura da estação postal em Calunga é uma das consequências que resulta de uma política de ocupação efectiva do território dos Dembos após as operações militares levadas a cabo por João de Almeida entre Setembro e finais de Novembro de 1907, que levaram à capitulação do dembo Cazuangongo e à tomada da sua Banza por parte dos efectivos militares. A região dos Dembos foi sempre uma “espinha” encravada na “garganta” dos portugueses.
Mapa parcial da região dos Dembos

Considerando-se os mais antigos registos conhecidos, Calunga foi um antigo posto militar na denominada região dos Dembos. Inicialmente era conhecida pelo nome de Calunga-cá-Ngombe ou Calunga Cangombe e foi um cabado do Golungo Alto. O curioso é que sendo um cabado, que deveria ser chefiado por um militar com a patente de Cabo, para este posto militar foi nomeado em 6 de Dezembro de 1845 o Alferes do Batalhão de Voluntários de Luanda, Albino de Sousa Pereira.
Posto Militar de Calunga

Em 1868 Calunga Cangombe era a 2.ª Divisão do Concelho do Golungo Alto, estando a 1.ª Divisão sediada em Trombeta a poucos quilómetros a Este. Em 1872 perante um certo laxismo e abandono da região com a retirada de uma parte significativa dos efectivos militares, o dembo Caculo Cahenda revoltou-se e assumiu o controlo da maioria da região dos Dembos.
Em resposta a esta rebelião foi enviada uma coluna militar comandada pelo Tenente Coronel Gomes de Almeida, que aparentemente conseguiu pacificar a região. Porém mais que a força militar, a acalmia registada deve-se essencialmente à abolição por parte das autoridades portuguesas, da cobrança dos dízimos dos concelhos, das passagens dos rios e sobre o pescado.
Carta de António da Costa Landeira para D. Francisco João Sebastião Cheque, Dembo Caculo Cahenda, 11de Julho de 1868. AHU, Arquivos dos Dembos.

Os dembos nunca encararam pacificamente a presença portuguesa na sua região de influência. No período que medeia os anos de 1890 a 1907 eles entraram por três vezes em conflito com as tropas portuguesas. A coluna militar de João de Almeida em 1907, que bateu e levou à ocupação da Banza de Cazuangongo, conseguiu temporariamente impor o domínio português na região, porém mantiveram-se sempre latentes pequenos focos de rebelião. Posteriormente entre 1908 e 1919, e porque esse estado de rebelião se mantinha, foram organizadas sucessivas expedições militares em Julho de 1908, Março de 1909, Julho de 1913, Novembro de 1918 e durante quase todo o ano de 1919. Pode-se afirmar que durante cerca de 47 anos (1872-1919) a região dos Dembos conseguiu manter-se uma região independente e só com a campanha militar de 1919 liderada pelo sertanejo Capitão Ribeiro de Almeida se conseguiu definitivamente subjugar a rebelião.
Dembo de Quitexe e sua comitiva

Ribeiro de Almeida era um verdadeiro bandoleiro do sertão, tendo em conta a sua forma de liderança muito “sui generis”. Ele comandava uma força constituída apenas por africanos que somente estavam autorizados a transportar o material mínimo indispensável e que tinham ordens rigorosas para o uso do sabre em detrimento da arma de fogo da época – a espingarda Mauser -. Só assim conseguiu colocar termo a 47 anos de rebelião.
Embaixada dos Dembos em Luanda

Provavelmente porque os dembos nunca tiveram o apoio dos seus “irmãos” do Golungo Alto ou do Ambaca, acabaram por capitular. Outra das razões dessa capitulação foi a impossibilidade de arranjar pólvora, pois quando Paiva Couceiro assumiu o cargo de Governador-Geral de Angola em 1907 determinou a proibição do seu comércio.
Com o estado de guerrilha latente o antigo Posto Militar de Calunga Cangombe era aberto ou encerrado consoante a área estava intermitentemente ocupada pelos militares portugueses ou pelas forças dos dembos, sendo porém reaberto oficialmente em 3 de Julho de 1913 pela Portaria n.º 747 já com a grafia simplificada de Calunga. Em 16 de Novembro de 1914 passou a Posto Civil e posteriormente foi extinto pela Portaria n.º 143 de 2 de Maio de 1919 e incorporado no Posto Civil de Cambondo.
Capitão do Estado-Maior, João de Almeida, comandante da coluna militar que em 1907 bateu o dembo Cazuangongo

A título de curiosidade a palavra Dembos deriva da palavra originária do quimbundo “ndembu” e designa a região limitada pelos cursos dos rios Dande e Zenza. Por sua vez a palavra minúscula “dembo” designa o chefe de vários sobados.
Quando da criação da estação postal de Calunga, ela foi dotada com marca de dia própria. O carimbo inicial é do tipo A6 (Magalhães, 1986), composto por um círculo e dois segmentos circulares, cujas cordas formam a ponte para a data. Neste tipo existem duas variantes, sendo este carimbo da “variante Aa” com datador de representação tradicional portuguesa, com o mês em abreviatura literal, mas com o ano contendo os quatro algarismos (25 DEZ 1910). Guedes Magalhães não referência este carimbo na sua obra “Marcas Postais de Angola”, aparecendo batido a preto e vermelho.
Marca de dia de Calunga batida a vermelho, e respectivo desenho

Porém atendendo à situação periclitante em que vivia a localidade de Calunga é provável que num dado momento, em virtude da situação de rebelião latente com avanços e recuos das forças militares portuguesas, o carimbo inicialmente atribuído à estação postal tenha desaparecido, razão para a atribuição do carimbo numérico volante n.º 5 à estação postal.
Selo obliterado com carimbo n.º 5 já atribuído à estação de Calunga, e respectivo desenho

São poucos os exemplares filatélicos conhecidos obliterados com qualquer das marcas atribuídas à estação postal de Calunga. A seguir reproduz-se uma das raras cartas conhecidas circuladas de Calunga, obliterada com o carimbo numérico volante n.º 5.
Carta remetida de Calunga (03.06.1918) para Barcelos (26.08.18) com trânsito pela Ambulância Ferroviária II do Caminho de Ferro de Luanda (06.06.18) e Luanda (07.06.18). Franquiada com 2 ½ c, correspondente ao primeiro porte para cartas com peso até 20g, expedidas para Portugal. Censurada no Porto. Carta remetida pelo Alferes de Infantaria António Joaquim Gonçalves, destacado em Calunga.

A terminar não quero deixar de realçar o facto e dar a conhecer, porque poderá ser do desconhecimento de muitos, que os Arquivos dos Dembos fazem parte do espólio do Arquivo Histórico Ultramarino. Ele é constituído por 1160 manuscritos em papel e outros suportes, e contempla correspondência datada de finais do séc. XVII até meados do séc. XX entre as autoridades africanas da região dos Dembos e as autoridades portuguesas em Angola. Recentemente a UNESCO decidiu aceitar os Arquivos dos Dembos no registo da Memória do Mundo.


Bibliografia
·         Índice Histórico-Corográfico de Angola, 1972, Mário Milheiros, IICA
·         Meio Século de Lutas no Ultramar, Bello de Almeida, Tenente-Coronel, 1937
·         Dicionário Corográfico – Comercial, Antonito, 4.ª edição, 1959
·         Boletim Oficial de Angola
·         Arquivos dos Dembos, AHU