domingo, 24 de fevereiro de 2013

Angola - Sobretaxa aérea interna


Emblema Aero Clube de Angola
Em 27 de Outubro de 1938 largou de Luanda com destino a Ponta Negra o avião S. Tomé (um Tiger Moth) do Aero Clube de Angola, sendo por ele expedidas as primeiras malas de correio por via aérea oriundas de Angola. Em 24 de Junho de 1936 quando se iniciou indirectamente a remessa de correio por via aérea o percurso desde Luanda até Leopoldville era efectuado por uma carrinha alugada à empresa SAPIC.

            Inaugurou-se assim oficialmente as carreiras aéreas do serviço aero-postal na Colónia, com ligação para o exterior por intermédio de Ponta Negra na África Equatorial Francesa. Todas as correspondências que se destinassem a Ponta Negra, para dali serem reexpedidas em avião, pagavam para além do porte ordinário referente ao país de destino, uma sobretaxa referente ao transporte aéreo.

            Tendo surgido na época dúvidas sobre o valor da sobretaxa aérea a pagar, a Repartição Central dos Correios e Telégrafos de Angola fez publicar no Diário de Luanda de 8 de Novembro de 1938 o seguinte esclarecimento:
            “A fim de elucidar o público sobre a cobrança da sobretaxa Avião das correspondências a expedir pela via aérea por intermédio da África Equatorial Francesa, muito agradecemos a V.Ex.ª a fineza de, por intermédio do seu conceituado jornal, esclarecer que a cobrança daquela sobretaxa é feita de acordo com as tabelas fornecidas pelas respectivas administrações:
            E como há a pagar o transporte extraordinário para a transmissão de tais correspondências á África Equatorial Francesa, houve necessidade de sobrecarregar as taxas dadas com a quantia de francos ouro 0,08 por cada 5 gramas.
            Nestas condições uma carta para a Europa paga aos correios da África Equatorial Francesa por cada 5 gramas ou fracção, a quantia de francos ouro 0,37 que sobrecarregada com os franco ouro 0,08 dá o total de Francos ouro 0,45.
            O valor do franco ouro para os Serviços de Correios, está computado em Angolares 8,00. Assim uma carta do escalão de 5 gramas de peso passa a pagar em moeda local a quantia de Ang. 3,60 da sobretaxa Avião”.

            O que se depreende deste esclarecimento prestado pela Repartição Central é que se deveria considerar dois tipos de sobretaxa de correio aéreo em cartas remetidas da Colónia: uma de 0,37 francos ouro a pagar aos correios da África Equatorial Francesa e outra de 0,08 de francos ouro (ou seja de 64c) correspondente aos custos a suportar pelo contrato assinado entre o Governo da Colónia e o Aero Clube de Angola pelo transporte das correspondências entre Luanda e Ponta Negra.

Em 24 Novembro 1938 em notícia inserta no Diário de Luanda este jornal apresenta exemplos mais concretos de tarifação das correspondências remetidas por via aérea.

Correio Aéreo
Taxas e sobretaxas para a Europa
            Para França e Córsega
                        Franquia postal
                                   Até 20 gramas                                                                       1$75
                                   Cada 20 gramas ou fracção a mais                                      1$00
                        Importância a entregar no “guichet” – sobretaxa avião
                                   Por cada 5 gramas ou fracção                                              2$56
                                   Pelo percurso Luanda – Ponta Negra                                     $64
                        Registo                                                                                             2$00
            Para restantes países da Europa
                        Franquia postal                                                        
                                   Até 20 gramas                                                                       1$75
                                   Cada 20 gramas ou fracção a mais                                      1$00
                        Importância a entregar no “guichet” – sobretaxa avião
                                   Por cada 5 gramas ou fracção                                              2$96
                                   Pelo percurso Luanda – Ponta Negra                                     $64
                        Registo                                                                                             2$00

Aplicando o câmbio de 8$00 por franco ouro teríamos que uma carta para França e Córsega pagaria 0,32 de franco ouro pelo percurso de Ponta Negra até ao destino + 0,08 pelo percurso Luanda – Ponta Negra num total de 0,40 de franco ouro por cada 5g ou fracção. Uma carta para os restantes países europeus, incluindo Portugal, pagaria 0,37 + 0,08 pelos mesmos percursos num total de 0,45 de franco ouro, por cada 5g ou fracção. Para além deste valor que deveria ser pago em dinheiro, (sendo o porte lançado na carta através sa aposição de uma etiqueta Mod. 264-A) as cartas deveriam ser franquiadas com selos correspondente ao porte ordinário no valor de 1$75 para os primeiros 20g de peso e de 1$00 por cada fracção de 20g acima daquele peso. Como as cartas remetidas para Portugal transitavam por um país estrangeiro aplicam-se os mesmos valores para o porte ordinário.

            Vem este tema a propósito por há pouco tempo ter adquirido através dos leilões da Ebay uma carta que numa primeira instância seria interessante porque foi transmitida num dos primeiros voos efectuados pelo Aero Clube. Mais concretamente a carta com o peso de 5g (Fig. 1) foi remetida de Luanda a 16 de Novembro de 1938 (4.º voo do Aero Clube de Angola) para Colmar em França com trânsito por Ponta Negra (17.11.1938). Recebida a carta fez-se o estudo da mesma e verifica-se que ela está perfeitamente enquadrada com as tabelas de porte em vigor. Pagou de porte ordinário em selos o valor de 1$75 (peso até 20g) e 0,40 de franco ouro em etiqueta mod 264-A pela sobretaxa de correio aéreo correspondente a: 0,08f pelo trajecto Luanda-Ponta Negra e 0,32f pelo trajecto de Ponta Negra-França.
Figura 1
            Perguntar-se-á porque razão uma carta que cumpre com o regulamentado pode assumir um carácter extraordinário? A verdade é que a aplicação dos regulamentos não foi fácil pelo que veremos a seguir. São invulgares as cartas correctamente tarifadas. Na generalidade dos casos não foi aplicada a sobretaxa interna do correio aéreo, principalmente na estação postal do Lobito. São invulgares as cartas correctamente tarifadas, no período que medeia emtre 28 de Outubro de 1938 e 28 de Fevereiro de 1939 (quatro meses).

            Vejamos agora alguns exemplos. Na figura 2 temos uma carta remetida do Lobito (08.11.38) para a Alemanha, com trânsito por Luanda (09.11.38) e Ponta Negra (10.11.38) no terceiro voo do Aero Clube de Angola. Com o peso de 4g manuscrito, pagou de porte ordinário 1$75 (peso até 20g) + 0,37f (peso até 5g) manuscrito em etiqueta Mod. 264-A, pagando a sobretaxa aérea correspondente ao percurso de Ponta Negra ao destino, de acordo com a tabela anteriormente apresentada. Ficou portanto por pagar a sobretaxa de 0,08f correspondente ao percurso interno. Poder-se-á alegar que tendo o esclarecimento público da Repartição dos Correios sido divulgado a 8 de Novembro de 1938, não tenha em tempo útil chegado ao conhecimento do Chefe de Estação do Lobito.
Figura 2
            Na figura 3 temos outra carta remetida do Lobito (29.11.38) para a Inglaterra, com trânsito por Luanda e Ponta Negra (08.12.38) no sétimo voo do Aero Clube de Angola. Tal como no anterior exemplo a carta com o peso de 3g manuscrito pagou de porte ordinário 1$75 (peso até 20g) + 0,37f (peso até 5g) manuscrito em etiqueta Mod. 264-A, pagando a sobretaxa aérea correspondente ao percurso de Ponta Negra ao destino. Ficou novamente e inexplicavelmente por pagar a sobretaxa aérea interna no valor de 0,08f.
Figura 3
            Na figura 4 temos um exemplo caricato. A carta com o peso manuscrito de 4g foi remetida do Lobito (08.01.1939) para Lisboa (19.01.39) com trânsito por Luanda e Ponta Negra (12.01.39) no 12.º voo do Aero Clube de Angola. A carta foi franquiada com selos no valor de 5$40 e ainda com a etiqueta Mod 264-A com o valor manuscrito de 0,37f. Ao câmbio da época e em valor local a carta deveria ter pago os seguintes valores:

            Porte ordinário (peso até 20g)                      1$75
            Sobretaxa do correio aéreo
                        Trajecto interno 0,08fx8,00Ag            $64
                        Trajecto exterior 0,37x8,00Ag          2$96
                                   Total                                           5$35

            Tendo em conta os selos aplicados eles pagaram o porte ordinário + sobretaxa aérea interna + sobretaxa aérea externa, existindo um excesso de porte de $05 normal e usual na época e despiciendo na análise. Porém não faz sentido a aplicação da etiqueta Mod. 264-A com o porte manuscrito de 0,37f, uma vez que o porte foi na totalidade pago através de selos postais. Esta apenas deve ser considerada a título meramente estatístico para cálculo dos pagamentos a efectuar à administração postal da África Equatorial Francesa, pelo transporte da correspondência por via aérea.
Figura 4
            Pelo que apresentamos verifica-se que nos tempos actuais temos que ser muito cautelosos na análise das correspondências de determinadas épocas, remetidas das nossas colónias. A aplicação dos regulamentos era avulsa e deficiente. Não havia coordenação dos serviços postais e muitas vezes os funcionários das estações postais não tinham capacidade profissional para analisar e aplicar as determinações emanadas das instâncias superiores.

            Porém deste pequeno apontamento fica a menção da existência de uma sobretaxa aérea interna em Angola para cartas remetidas para o estrangeiro, a acrescer às tabelas aprovadas no âmbito da UPU.

Bibliografia
                        Diário de Luanda

 

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

Angola - Correio acidentado * Sinistro da Sabena (3)


Avião Marchetti S73 sinistrado
            Mais uma vez reforço a ideia de que é diminuto o número de correspondências sinistradas circuladas desde Angola ou para aí remetidas. Raramente estas correspondências aparecem à venda e quando aparecem são muito requisitadas tendo em conta a sua invulgar raridade. Em Novembro do ano passado tive a oportunidade de obter mais um desses exemplares num leilão realizado no Porto e fiquei agradavelmente surpreendido pela módica quantia paga pelo exemplar. É certo que o exemplar em questão tem a marca alusiva ao acidente muito mal batida, porém é e será sempre um exemplar filatélico de extrema raridade. Enfim fiquei bastante agradado pela sua aquisição e principalmente por poder fazer parte da minha colecção de correio aéreo de Angola.

Marchetti S73 em reparação
            Trata-se de mais um acidente aéreo com um dos aviões da companhia de aviação belga SABENA que fazia a ligação do Congo Belga para a Bélgica. O avião na sua rota com destino a Bruxelas, levantou voo de Gao com destino a Oran em mais uma das diversas ligações previstas e, quando se preparava para a sua aterragem na pista desta última cidade despenhou-se 10 kms a sul do aeroporto tendo provocado a morte dos 4 membros da tripulação e dos 8 passageiros que transportava. Não conseguimos apurar quais as falhas técnicas ou erros humanos que determinaram a queda da aeronave.

            De seguida apresenta-se a ficha técnica sobre o acidente e das características da aeronave sinistrada:


Ficha técnica
Data: 26 de Janeiro de 1937
Interior do avião Marchetti S73
Hora: Cerca das 17H30
Local do acidente: Oran (Argélia)
Avião: Marchetti S73, construído pela Savoia-Marchetti
Companhia de bandeira: SABENA
Matrícula: OO-AGR
Carreira: Leopoldville – Bruxelas
Piloto: Comandante Closset Aug.
Tripulação: 3 pilotos e 1 assistentes de bordo – todos mortos
Passageiros: 8 – todos mortos
Motores: Três motores Alfa Romeo 126 RC.34, de 750cv cada um
Velocidade máxima: 325 kms/h
Velocidade cruzeiro: 280 kms/h
Capacidade máxima: 18 passageiros
Comprimento: 18,37 m
Envergadura: 24,00 m
Alcance: 1.000 Kms
1.º Voo de ensaio: 4 de Junho de 1934
Início de utilização comercial: 1935

O avião Marchetti S73 foi o primeiro da geração de trimotores fabricados por Alessandro Marchetti, cujo início teve lugar no ano de 1933, mas só em 4 de Junho de 1934 realizou o seu primeiro voo de ensaio desde a base situada em Cameri (Novara). A Sabena foi uma das empresas que maior número de aviões adquiriu desta série, num total de 12 aeronaves. Comercialmente este tipo de avião apenas começou a operar em 1935.
Mapa assinalando a rota e local do acidente

Do acidente foi recuperada uma grande parte da correspondência, alguma com grandes danos. A correspondência foi marcada com diversos tipo de carimbos e marcas alusivos ao acidente. A maioria dessas marcas foi colocada em França. No caso do exemplar que apresentamos foi usado um carimbo de borracha com o texto em três linhas batido a vermelho: Courrier aèrien SABENA / accidenté / ORAN 28 janvier 1937. Esta marca também aparece batida a preto.

Provavelmente esta marca já terá sido aposta em Bruxelas. Henri Nierinck na sua obra “Recovered Mail 1937/1988” não especifica em que local foi aplicada a marca, porém como a carta era dirigida a Bruxelas faz todo o sentido que a aplicação do carimbo tivesse lugar aí.

O sobrescrito da Fig.1 fez parte do correio sinistrado. Foi remetido registado do Dundo / Portugália (19.01.37) e por via terrestre para Tshikapa (20.01.1937), de onde foi transportado para Leopoldville por via aérea e pela Sabena. A mesma companhia aérea transportou-a de Leopoldville para Bruxelas, percurso em que se verificou o acidente aéreo.
Fig. 1 - Frente e pormenor
 
            Na frente do sobrescrito levou a franquia em selos postais de 5,80 Ags correspondente a: 2,00 Ags pelo prémio de registo + 1,75 Ags pelo primeiro porte do correio ordinário para países estrangeiros (cartas com peso até 20g) + 2,00 Ags pelos 2.º e 3.º portes do correio ordinário para cartas com o peso entre 41 a 60g + 0,05 Ags de excesso de porte (muito habitual nas correspondências de Angola neste período).
Fig. 1 - Verso
 
            No verso foi aplicada uma etiqueta Mod 264-A, com a inscrição manuscrita do peso da carta (45 grs), assim como a sobretaxa de correio aéreo no valor de 4,32 ff, correspondente ao 9.º porte da sobretaxa (0,48ff x 9 = 4,32 ff).

Bibliografia
·         Recovered mail (1937-1988), 1996, Henri L. Nierinck
·         Histoire du Service Postal au Congo Belge (1886-1960) – Tome I, 2002, Roger Gallant

 

domingo, 27 de janeiro de 2013

Angola - Ligações aéreas Leopoldville - Luanda


Vista aérea de Leopoldville
            Por duas ocasiões, uma em 1936 e outra em 1939, aviões da Sabena deslocaram-se a Luanda transportando comitivas governamentais e desportivas. Em cada uma dessas viagens foram fechadas malas de correio sinalizando a efeméride. Porém foram ligações aéreas ocasionais. A avião comercial em Angola era incipiente estando restrita apenas aos dois voos semanais que os aviões do Aero Clube de Angola asseguravam, um para norte até Ponta Negra e outro para sul até Moçamedes, para além de um voo semanal da SAA de Cape Town para Luanda.
Vista do centro de Leopoldville
 
            Porém a população e o tecido empresarial reivindicava por uma maior disseminação da aviação. Numa tentativa de ampliar a oferta das ligações aéreas a Associação Comercial de Luanda e a Câmara de Comércio de Leopoldville apresentaram, em Fevereiro de 1940, uma proposta às entidades governamentais no sentido de autorizarem a criação de uma carreira aérea entre as cidades de Luanda e Leopoldville. O serviço estaria a cargo dos aviões da SABENA que semanalmente transportariam passageiros, correio e encomendas. O preço de cada viagem seria de 1.200 francos com desconto de 10% nas viagens de ida e volta. O transporte de encomendas seria feito ao preço de 12 francos por quilograma.
Vista de Luanda
 
            Segundo a petição apresentada apontava-se a conveniência do estabelecimento desta ligação pelas grandes relações comerciais que já existiam entre as duas colónias, e sendo certo que elas se justificavam no passado, mais ainda se impunha atendendo à situação de guerra em que se vivia que obrigava a um maior estreitamento de laços entre elas.
            Esta vontade da população e dos proprietários esbarrava na intransigência das entidades governamentais que simplesmente ignoraram essa pretensão.
Sobrescrito publicitário da Mampeza, Limitada
 
            Um das empresas que mantinha uma forte ligação entre as duas colónias era a Mampeza, importante organização comercial portuguesa do Congo Belga e uma das maiores daquela colónia belga. O seu sócio gerente Pedro Morgado apoiante da petição para o estabelecimento da ligação aérea decidiu deslocar-se a Luanda a convite do gerente do Banco de Angola António Avelino da Silva, provavelmente numa tentativa de sensibilização das autoridades angolanas para o projecto.
Avião trimotor Marchetti SM-83 da SABENA
 
            Utilizou como meio de transporte um trimotor Marchetti SM-83, alugado à SABENA, que o conduziu de Leopoldville a Luanda no dia 7 de Fevereiro de 1940 (quarta-feira) tendo regressado a 12 de Fevereiro (segunda-feira). Fez-se acompanhar pela sua irmã Amélia Morgado, também sócia da Mampeza.
Sobrescrito circulado por via aérea de Leopoldville (06.02.1940) para Luanda (07.02.1940). Devolvido ao remetente por correio ordinário de Luanda (19.03.40) para Leopoldville (24.03.40) com trânsito por Boma (21.03.40). Pagou de porte pela devolução 0,80Ag correspondente ao primeiro porte de correio ordinário (cartas com peso até 20g) para países da África Austral (Aviso n.º 8 de 02.05.36 da Repartição Central dos CTT de Angola).
 
            Provavelmente para demonstrar a utilidade e portanto a razão da petição foi fechada mala de correio em Leopoldville para Luanda, transportada pelo avião fretado por Pedro Morgado da Mampeza. O avião aterrou na pista do Aero Clube de Angola pelas 14H00 desse dia.
            Porém as intenções ficaram por este voo solitário, fretado por uma empresa comercial, porque conforme anteriormente afirmamos, as autoridades não lhe deram provimento. Restou para a filatelia um conjunto de cartas circuladas nesse voo. Esta foi a terceira mala de correio fechada do Congo Belga para Angola desde sempre.

Bibliografia
·         Jornal “A Província de Angola”
·         Jornal “Diário de Luanda”
 

domingo, 30 de setembro de 2012

1939 - A Sabena em Angola * Viagem presidencial


            Há uns anos atrás tivemos a oportunidade de publicar no Boletim do Clube Filatélico de Portugal n.º 405, de Setembro de 2004, um artigo intitulado “A História e a Filatelia * Restauração de Angola, Futebol e Correios Aéreo, onde apresentei dois raros sobrescritos circulados no voo que a Sabena realizou, em Agosto de 1936 de Leopoldville a Luanda e vice-versa, transportando a equipa de futebol do Congo Belga que veio realizar um jogo previsto no programa de comemorações do 288.º aniversário da reconquista de Angola aos holandeses.
Sobrescrito circulado em 14.08.1936 pela Sabena de Leopoldville para Luanda
 
            Esses dois sobrescritos que são de extrema raridade são algumas das “jóias da coroa” da minha colecção de correio aéreo de Angola. Tenho estes dois exemplares, cada um deles voado em cada um dos sentidos e nunca mais tive a oportunidade de ver outros semelhantes.
Carta circulada no voo de retorno da Sabena (15.08.36) de Luanda para Leopoldville
 
            Vem esta introdução a propósito porque adquiri recentemente um exemplar filatélico que, não sendo dessa primeira e histórica viagem de um avião da Sabena, está relacionado com uma segunda viagem a Angola de um dos aviões da companhia aérea belga, e que também transportou correio na sua viagem.
            Publiquei há pouco tempo neste blog um artigo sobre a primeira ligação aérea entre Angola e a África do Sul realizada pela South Áfrican Airways no advento da viagem presidencial de Óscar Carmona a Angola.
            A viagem a Angola, em 1939, do então Presidente não passou despercebida às colónias vizinhas de Angola que fizeram deslocar até Angola os seus governadores como foi o caso do ex-Congo Belga e do ex-Congo Francês, para além da visita de dois ministros do governo Sul-Africano.

            No dia 26 de Agosto de 1939, véspera da chegada do Presidente da República Portuguesa a Luanda, aterrou pelas 12H30 no aeródromo do Aero Clube de Angola um “Junker” da Sabena que transportava Pierre Ryckmans, Governador-Geral do Congo Belga, deslocando-se propositadamente para lhe apresentar cumprimentos em nome do Rei Leopoldo III da Bélgica.
Junker 52 da SABENA
 
            O que parecia apenas um voo de cortesia política acabou por proporcionar aos amantes da filatelia, e especialmente aos do correio aéreo, motivos de regozijo. Efectivamente, os correios da colónia belga, decidiram fechar mala de correio aéreo para ser transportada nesse voo, contendo essa mala pouco mais de três dezenas de cartas alusivas à viagem governamental.
            Os catálogos especializados de Frank Muller e de F. Godinas não referenciam este voo especial e não é vulgar o número de cartas circuladas, o que pode ter determinado terem passado despercebidas a muitos filatelistas. Na figura abaixo reproduzo uma das cartas transportadas nesse voo. Desconhecemos, porque se não conseguiu comprovar, se houve fecho de mala no voo de retorno.
Sobrescrito circulado como contendo impressos de Leopoldville (25.08.39) para Luanda (26.08.39)
 
            Porque as relações entre Portugal e a Bélgica não tenham sido sempre as melhores, consequência provável da partilha do Congo em 1885, tardaram a estabelecer-se ligações aéreas recíprocas entre Angola e o Congo Belga. A Sabena por várias vezes abordou as autoridades portuguesas no sentido de serem autorizados a trazer os seus aviões até Luanda e sempre lhes foi negada essa autorização. Entretanto e com carácter episódico, quando alugados por particulares, os aviões da Sabena fizeram alguns voos comerciais para Luanda. Só muitos anos depois foi autorizada a voar para Luanda.

Bibliografia
·         Jornal “A Província de Angola” de 26.08.1939
·         Catalogue de la Poste aérienne de Belgique et du Congo-Belge, Fr. Godinas
·         Catalogue des Aérogrammes du Monde Entier, Frank Muller, 1950
·         Intercontinetal Airmail * Volume Three * Africa, 2010, Edward Proud
·         Boletim do CFP n.º 405 – Setembro 2004
 

domingo, 16 de setembro de 2012

Carimbos numéricos volantes (28) * Andulo


Andulo nos anos 60
            Do estudo que vimos fazendo sobre os carimbos numéricos volantes cabe agora a vez de escrevermos sobre o historial do carimbo e sinete de lacre com o número 28. Este carimbo faz parte da segunda remessa que se mandou fazer e que era composta por dez carimbos numerados de 21 a 30.
            Estes dez carimbos pertencem ao tipo 2 cujas características principais são: círculo concêntrico exterior com 26mm de diâmetro e a legenda do arco inferior “CORREIOS” em vez da legenda do tipo 1 “CORREIO”.
Desenho do carimbo
 
            O carimbo e sinete de lacre foram atribuídos à estação postal de 3.ª classe do Andulo, pela ordem de serviço n.º 76 da Repartição Superior dos Correios de Angola, datada de 10 de Março de 1916, que abaixo se reproduz destacada do Boletim dos CTT de Angola n.º 3 de 1916.
Ordem de Serviço n.º 76 da RSCA de 10.03.1916
 
            A estação postal do Andulo foi criada pela Portaria Provincial n.º 9 de 16 de Janeiro de 1916 com a categoria de 3.ª classe, executando os serviços de recepção e expedição de correspondências ordinárias, assim como a venda de selos postais e outras fórmulas de franquia. Ficou responsável pela sua gestão o Chefe de Posto. Normalmente as chefias das estações postais de 3.ª classe eram entregues a pessoal estranho aos serviços dos correios, como sejam chefes de posto civil, comandantes de postos militares, comerciantes e chefes de estações ferroviárias.
Portaria n.º 9
 
            Em língua gentílica, Andulo designava-se Indulo ou abreviadamente Dulo, que significava fel (amargura). O soba Chicolongongo tinha um filho que foi mordido por uma cobra e acabou por falecer. O dorido pai decidiu mudar o nome da embala (povoação) para Andulo (fel-amargura).
Mapa de localização
 
Em 1916 quando foi criada a estação postal Andulo era um simples posto civil do Bié. Em 21 de Janeiro de 1920 pela Portaria Provincial n.º 46 foi criada a Circunscrição Civil do Andulo, cuja sede primitiva estava em Caundi, tendo passado para o Posto Civil do Andulo, também designado pelos nativos, por Posto de Dondelo. Em 1934 passou a constituir um concelho de 3.ª classe.
Administração do Concelho onde durante vários anos esteve instalada a estação postal
 
            A localidade do Andulo teve um desenvolvimento rápido e em 1959 mercê do grande volume de correspondência postal circulada e por ser servida pelo telégrafo passou a ter uma estação telégrafo-postal de 1.ª classe servida por pessoal afecto aos serviços dos correios.
Fig. 1 - Sobrescrito circulado do Andulo (07.07.34) para Vila Nova de Fozcôa (28.07.34) com trânsito por Silva Porto (08.07.34). Franquiada com 0,80Ag pelo primeiro porte para Portugal (cartas até 20g) + selo do imposto postal “Assistência” de 0,50Ag devido durante o mês de Julho.
 
            Andulo ficava a uma altitude de 1.790 metros em pleno planalto central e usufruía de um clima subtropical óptimo, com temperaturas médias anuais de 20.º chegando a gelar as águas fora de casa nos meses mais frios de Maio a Julho, o que facilitava a fixação de europeus.
Fig. 2 - Sobrescrito circulado do Andulo (18.01.45) para Boston. Franquiado com 1,75Ags correspondente ao primeiro porte para cartas com destino aos países estrangeiros (peso até 20g)
 
            Economicamente era muito forte existindo em 1959 65 casas comerciais na área do posto, para além de diversas unidades agrícolas que se dedicavam à cultura do café, sisal, tabaco, batata, trigo e milho. A pecuária também apresentava um bom desenvolvimento. Porém a fruticultura tinha uma grande implantação, exportando frutas para Luanda, principalmente morangos, maçã, laranja, goiaba e nêsperas.
Fig. 3 - Bilhete-Carta para o serviço aéreo de 4,50Ags circulado de Chilesso / Andulo (21.04.51) para Sunderland / USA, com trânsito pelo Lobito (24.04.51) e Luanda (28.04.51). Carimbo numérico utilizado como recurso, pois a estação do Andulo já tinha marca de dia própria com topónimo.
 
            Tinha um clube desportivo e recreativo, o Sport Andulo e Benfica. Á Vila do Andulo chegou a ser dado o nome de Vila Macedo de Cavaleiros, mas voltou a chamar-se Andulo por imposição legal.
            O carimbo numérico volante atribuído à estação postal do Andulo foi o que mais tempo esteve ao serviço de uma estação postal. Atribuído à mesma em 1916 encontram-se registo da sua utilização em 1951 conforme se pode constatar pelo figura n.º 3 .
Fig. 4 - Bilhete-Carta para o serviço aéreo circulado do Andulo (19.06.57) para os EUA. Sobretaxado de 1$00 sobre 2$50. Um selo adicional de 3,00Ags perdido.
 
É provavelmente o carimbo mais comum de entre os carimbos numéricos. Pelos nossos registos a Vila do Andulo só teve marca de dia com topónimo na reforma de 1947 (Fig. 4)


Bibliografia
· Índice Histórico-Corográfico de Angola, 1972, Mário Milheiros, IICA
· Boletim Oficial de Angola
· Boletim dos CTT de Angola, 1917
· Dicionário Corográfico-Conercial – Antonito, 1959 4.ª edição